* Cantinho Satkeys

Refresh History
  • JP: try65hytr Pessoal  2dgh8i k7y8j0 43e5r6
    Hoje às 05:31
  • j.s.: dgtgtr a todos  49E09B4F 49E09B4F
    05 de Agosto de 2026, 13:50
  • FELISCUNHA: ghyt74  pessoal   49E09B4F
    05 de Agosto de 2026, 11:22
  • JP: dgtgtr Pessoal  4tj97u<z 2dgh8i k7y8j0
    03 de Agosto de 2026, 18:43
  • FELISCUNHA: dgtgtr   49E09B4F  e bom fim de semana  4tj97u<z
    01 de Agosto de 2026, 12:21
  • JP: try65hytr A Todos  4tj97u<z 2dgh8i k7y8j0 yu7gh8
    31 de Julho de 2026, 05:35
  • j.s.: ghyt74 a todos
    30 de Julho de 2026, 09:51
  • FELISCUNHA: ghyt74  pessoal  49E09B4F
    29 de Julho de 2026, 10:49
  • JP: dgtgtr Pessoal  4tj97u<z 2dgh8i k7y8j0
    27 de Julho de 2026, 19:40
  • j.s.: tenham um excelente domingo  yu7gh8 yu7gh8
    26 de Julho de 2026, 11:29
  • j.s.: ghyt74 a todos  49E09B4F 49E09B4F
    26 de Julho de 2026, 11:28
  • FELISCUNHA: ghyt74  e bom fim de semana  4tj97u<z
    25 de Julho de 2026, 11:29
  • JP: try65hytr Pessoal  4tj97u<z 2dgh8i k7y8j0 classic
    24 de Julho de 2026, 04:53
  • j.s.: try65hytr a todos  49E09B4F
    22 de Julho de 2026, 21:03
  • JP: try65hytr Pessoal  4tj97u<z 2dgh8i k7y8j0 yu7gh8
    21 de Julho de 2026, 03:46
  • momo2free: dorcal
    19 de Julho de 2026, 18:10
  • FELISCUNHA: Votos de um santo domingo para todo o auditório  k8h9m
    19 de Julho de 2026, 10:44
  • JP: try65hytr Pessoal  4tj97u<z  2dgh8i k7y8j0
    14 de Julho de 2026, 05:28
  • j.s.: ghyt74 a todos
    13 de Julho de 2026, 08:29
  • cereal killa: try65hytr pessoal  r4v8p 4tj97u<z
    08 de Julho de 2026, 22:21

Autor Tópico: A moça mostrava a coxa  (Lida 2255 vezes)

0 Membros e 1 Visitante estão a ver este tópico.

casconha

  • Visitante
A moça mostrava a coxa
« em: 30 de Setembro de 2013, 14:27 »


A moça mostrava a coxa,
a moça mostrava a nádega,
só não mostrava aquilo
– concha, berilo, esmeralda –
que se entreabre, quatrifólio,
e encerrra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea,
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
a moça não me mostrava.
E torturando-me, e virgem
no desvairado recato
que sucedia de chofre
á visão dos seios claros,
qua pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.
Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida
no que, sombrio, faiscava.
Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o maximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.
Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-d'alva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjoo
de fera presa no Zôo.
Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pêlo de ventre! mas sexo
era segredo de Estado.
Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!
Mas que perfume teria
a gruta invisa? que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prístina, pura,
me chamava, me fugia?
Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.
Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quando mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?
De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia...
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta...



Carlos Drummond de Andrade